A VOZ DO PASTOR

Sábado, 16 Setembro 2017 00:12

A Compadecida

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  Celebramos Nossa Senhora das Dores, padroeira de Senador Pompeu, no último dia 15 de setembro com o esmero do pároco, a colaboração das pastorais, a participação do bom povo e a presença do bispo.

A solenidade litúrgica acentuou a dimensão cristocêntrica: Jesus, Salvador do gênero humano, quis associar sua Mãe à Paixão, sofrida por Ele com amor sacrifical. Tal dimensão participativa de comunhão tornou-a cooperadora muito íntima, na intenção e nos afetos. A sequência cantada do Stabat Mater, após o salmo, nos lembrara com suavidade poética.

A união no destino e na missão de seu Filho até a morte de cruz estava presente, desde a profecia de Simeão, por ocasião da apresentação de Jesus no templo. Disse à Mãe: “Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição -e a ti, uma espada traspassará tua alma- para que se revelem os pensamentos íntimos de muitos corações” (Lc 2, 34-35).

Ela suportaria a injusta e cruel rejeição feita ao seu Jesus. A dor se lhe assemelharia à espada que fere a alma. Por isso, a Maria se aplicam, de forma bem ajustada, a lamentação: “Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede! Há dor igual a minha dor? ” (Lm 1,12)

A dimensão cristocêntrica liga-se à eclesial. “ Perto da cruz de Jesus permaneciam de pé sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19, 25). A três Marias, unidas a Jesus, formam um núcleo eclesial apreciável de sublimidade afetiva e qualitativa, com o discípulo amado. Realizam o que Jesus dissera: “onde Eu estou, aí também estará o meu servo” (Jo 12, 26).

A presença junto ao Justo Sofredor e aos sofredores nunca haveria de faltar na história da Igreja. Desde a Cruz, a presença feminina é maior do ponto de vista quantitativo e qualitativo. Recentemente, o Papa Francisco salientou e estimou o protagonismo das mulheres na América Latina, em sua viagem à Colômbia.  Entre tantas expressões elogiosas, disse: ”Sem as mulheres a Igreja e o continente não poderiam renascer continuamente”. Elas são, portanto, sinônimo da vida eclesial solidária.

A piedade popular católica projetou o encontro de Jesus com sua Mãe na via-sacra. Presume o caminho de Maria percorrido na via dolorosa junto ao seu Filho até o Calvário onde ficará de pé e receberá seu corpo inerte nos braços até o outro percurso ao sepulcro. É pintada ou esculpida pelo talento de tantos artistas Desolada e Compadecida ou a própria Piedade. Imagina-se a via-sacra às avessas, ou seja, Maria que descendo o Calvário, revê, fora e dentro de si mesma, as cenas ultrajantes do sofrimento injusto. Na verdade, é a via-sacra interior, no coração martirizado por crudelíssimas lembranças.

Tendo nosso olhar contemplativo fixado na face lacrimosa da Mãe de Jesus, compreendemos melhor o que o Apóstolo dissera de si mesmo: “Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24). Tal regozijo nos sofrimentos pelos outros é um contraste verdadeiro e não pode ser mero modo de dizer. Também não é apreciar a dor por comodismo ou masoquismo. Significa ser solidário com as dores do outro. Paulo atesta a alegria de ter- se associado às tribulações do Senhor em favor de muitos.

 A comemoração de Nossa Senhora das Dores nos recordou que, a partir do sofrimento da Cruz, Maria vive para nós: “Mulher, eis aí teu Filho! ” (Jo 19, 26). Também a Igreja não vive para si mesma, pois, é missionária e samaritana, solidária e servidora, consoladora e animadora em palavras e ações.

 

 A liturgia também propôs a dimensão pascal na oração do dia: “Dai à vossa Igreja, unida a Maria na Paixão de Cristo, participar da ressurreição do Senhor”. Tal compreensão pascal foi reforçada pela leitura de Hebreus na qual a oração de Jesus foi ouvida, “por causa de sua entrega a Deus” (Hb 5, 7) e, pela “consumação de sua vida se tornou causa de salvação eterna” (v. 9).  Assim, Ele garantiu-nos o cumprimento da promessa salvífica: “a vossa tristeza se transformará em alegria” (Jo 16, 20) na Páscoa da Ressurreição.

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